O Corpo Se Inquieta, a Imagem Aparece: Coreografia e Visualidade Política na Dança
DOI:
https://doi.org/10.21814/vista.7102Palavras-chave:
arte, dança, coreografia, imagem, políticaResumo
Este artigo apresenta um estudo comparativo qualitativo sobre a produção de imagens coreográficas na dança brasileira, compreendendo a imagem não como ilustração formal, mas como acontecimento perceptivo fabricado pelo corpo em movimento. A análise concentra-se em duas obras criadas em contextos históricos distintos, porém atravessados por regimes autoritários de direita: Kuarup (1977), do Ballet Stagium, concebida durante a ditadura civil-militar brasileira, e Objeto Abjeto Ambulante (2018), do Coletivo Corpos Falantes, criada no contexto do avanço da extrema direita no Brasil contemporâneo. O estudo investiga como essas obras produzem imagens que se organizam entre dois regimes perceptivos: o fluxo contínuo do movimento e a suspensão do gesto, compreendidos como estratégias estéticas e políticas de elaboração crítica do tempo histórico. Metodologicamente, a pesquisa articula a análise de registros audiovisuais, fotografias de cena, entrevistas e materiais de circulação pública, tratando a coreografia como um dispositivo de fabricação do sensível. Em Kuarup, as imagens coreográficas operam por meio da alegoria, do mito e da coralidade, produzindo experiências perceptivas capazes de atravessar a censura estatal sem recorrer à nomeação direta da violência política. Já em Objeto Abjeto Ambulante, a imagem emerge da exposição explícita do corpo coletivo periférico, que articula memória histórica, vivências territoriais e enunciação direta da violência no tempo presente. A comparação evidencia que as imagens coreográficas são inseparáveis dos regimes históricos, institucionais e sensíveis que as produzem, revelando a dança como prática crítica capaz de reorganizar modos de ver e partilhar a política por meio da experiência coreográfica.
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