Chamada de Trabalhos | Artivismos Visuais Contra a Necropolítica: Um Convite à Investigação Artivista (N.º 18) | 10 de março de 2026 a 24 de maio de 2026

2026-03-11

Editores Temáticos: Nicoletta Mandolini (CECS, Universidade do Minho, Portugal), Dori Nigro (Faculdade de Belas Artes, Universidade do Porto, Portugal) e Renísia Garcia Felice (Faculdade de Educação, Universidade de Brasília, Brasil)

Vivem-se tempos perigosos. Conflitos locais e globais transformam-se cada vez mais em guerras que expõem seres humanos e não humanos a armas letais e a traumas profundos, deixando-os confrontados com uma escassez generalizada de recursos e serviços essenciais. A retórica securitária, implementada através de ações políticas promovidas por regimes ditatoriais e paraditatoriais emergentes, conduz a uma abdicação gradual de direitos fundamentais em nome do medo — seja o medo dos outros, das doenças ou de eventuais convulsões planetárias. Simultaneamente, o tecnocapitalismo está a erodir rapidamente a capacidade de imaginar futuros em que a relacionalidade não seja mediada por lógicas algorítmicas e interesses financeiros. Por fim, as alterações climáticas já manifestam consequências devastadoras através de catástrofes que perturbam ecossistemas e vidas. Desastres frequentemente classificados como “naturais” expõem ainda mais as desigualdades sociais e afetam profundamente vidas já marcadas pela racialização (Bullard, 1993). Exemplos disso podem ser observados em inundações consecutivas, particularmente em países do Sul Global, que demonstram que determinadas populações são desproporcionalmente afetadas. Por outras palavras, o perigo, longe de se distribuir equitativamente entre aqueles que habitam o globo, constitui um espaço onde o privilégio se evidencia. O medo é também uma via para o processamento e o confronto de traumas decorrentes de relações sociais e raciais que permanecem por resolver. É neste sentido que tanto Frantz Fanon (1952/2008) como Grada Kilomba (2019) problematizam o trauma a partir de perspetivas pessoais, políticas e artísticas, refletindo sobre como o racismo produz feridas fatais tanto no plano psicológico como no físico. O influente conceito de “necropoder”, de Achille Mbembe (2016), contribuiu para esclarecer como a exposição ao risco de morte é distribuída de forma desigual. Longe de ser aleatória ou uniforme, tal exposição encontra-se profundamente interligada à sistematização de dinâmicas neocoloniais que asseguram a expansão e a proteção de determinadas categorias de pessoas, enquanto simultaneamente negam a outras o direito à vida. Embora o perigo possa ser experimentado como uma condição comum da hipermodernidade, materializa-se frequentemente na erosão do mais fundamental dos direitos — o direito à vida — sobretudo no caso de indivíduos racializados, e de mulheres e de sujeitos queer e trans*, assimetricamente expostos a formas contemporâneas de exploração, pobreza sistémica e discriminação generalizada.

Não é, portanto, coincidência que seja a partir do Sul Global, entre comunidades que permanecem persistentemente desprotegidas face a uma série de dinâmicas potencialmente devastadoras de subordinação social e de extrativismo, que emerge o conceito de “reexistência”. Introduzida por Carlos Walter Porto-Gonçalves, a ideia de “reexistência” joga com a palavra “resistência” para descrever atos de reinvenção e renegociação que facilitam a formação de novos espaços de vitalidade e de afirmação de subjetividades oprimidas (Hurtado & Porto-Gonçalves, 2022, p. 5). O mesmo conceito foi posteriormente apropriado por pensadoras feministas decoloniais e antiextrativistas, que reconheceram a sua relevância para descrever as estratégias adotadas por mulheres e por indivíduos não conformes com o género, visando resistir à violência patriarcal femicida e transfemicida, bem como evidenciar a estreita ligação destas práticas com o necropoder imperialista na América do Sul (Estupiñan Valencia, 2021; Glockner et al., 2024). Tais práticas, saberes e modos de fazer atuam como formas de reexistência face às camadas da cosmogonia do capitalismo racial (Adeyemo & Oliver, 2020), problematizando a continuidade da colonialidade com base em realidades situadas em diferentes contextos sociais e reforçando a ideia de que não existe futuro sem o presente — é no presente que a liberdade se pratica e que a transformação se constrói (Freire, 2019).

É precisamente a ideia de reexistência, e as suas diversas manifestações, que se pretende destacar para discutir e conferir maior visibilidade académica à luta contra o necropoder. O foco específico deste número temático incide no ativismo artístico, ou artivismo, e na sua mobilização enquanto ferramenta para desafiar tendências necropolíticas que afetam, embora de modos distintos e em graus inquietantemente diferentes, tanto o Sul Global como o Norte Global. O artivismo convoca simultaneamente dimensões poéticas e políticas, partindo do entendimento de que o político é inerente à prática artística. Nesse sentido, nenhuma prática artística é neutra — toda a produção implica uma posição situada e uma perspetiva relativamente ao mundo. Os artivismos movem-se entre esferas urbanas e digitais e atravessam campos políticos, artísticos, sociais e educativos, questionando as institucionalidades e os cânones que estruturam o mundo contemporâneo (Fernandes et al., 2022). As práticas artísticas contemporâneas podem desempenhar um papel significativo neste contexto ao formular questões e ao abrir espaços para diálogos poéticos e políticos, mesmo perante os perigos iminentes que marcam o presente. A arte pode criar zonas de escuta, fricção e imaginação radical, nas quais se tornam possíveis outras formas de pensar e de reimaginar utopias.

Sugere-se que a prática artística constitui um lugar de vitalidade. A criatividade emerge de tensões vivas — individuais ou coletivas —, ao mesmo tempo que as alimenta. Não surpreende, portanto, que a arte convirja frequentemente com o ativismo para denunciar forças necropolíticas e apoiar as lutas daqueles que encarnam a ideia de reexistência. No campo da cultura visual — uma área de intervenção mediática, artística e académica que há muito se cruza com reflexões sobre o funcionamento das relações de poder (e.g., Berger, 1972; Mulvey, 1989; Mirzoeff, 1999), bem como sobre práticas de resistência às mesmas (e.g., Herwitz, 2021; hooks, 1992) — têm emergido inúmeros projetos artivistas que procuram denunciar e superar simbolicamente regimes necropolíticos. Alguns destes projetos já receberam atenção crítica (e.g., Demos, 2020; Freitas, 2019; Ogula, 2025). Contudo, nenhuma intervenção académica sistemática abordou especificamente esta questão.

A articulação entre arte e ativismo constitui o principal objeto de estudo e discussão deste número temático, bem como o principal método de análise das contribuições académicas que se pretende acolher neste volume da Vista. Situado no âmbito de uma revista académica dedicada à análise das culturas visuais, este número suscita necessariamente reflexões sobre a ligação entre operações artivistas e práticas de investigação. Num momento em que tanto o ativismo artístico/artivismo (Correch, 2019; Groys, 2014; Lacy, 2010; Serafini, 1999) como a investigação artística (Capous-Desyllas & Morgaine, 2018; Lacey, 2020; McLeod & Holdridge, 2006) são amplamente reconhecidos e explorados enquanto intersecções produtivas, propõe-se uma convergência adicional sob a noção de “investigação artivista”, que informa e orienta as opções editoriais deste número. Neste contexto, as práticas artísticas tornam-se não apenas lugares espaço-temporais de enunciação, nos quais traumas e feridas ainda abertos podem ser processados, mas também ambientes capazes de expandir debates decorrentes de experiências situadas em comunidades autogeridas do Sul Global, relativamente à contracolonização (Santos, 2015, 2023). Nessas práticas, são convocadas gestualidades, corporalidades e ancestralidades, contribuindo para uma reflexão mais profunda sobre políticas públicas sociais mais amplas.

Com este número temático, pretende-se não apenas reconhecer e examinar criticamente práticas artivistas contra a necropolítica, mas também incentivá-las ativamente através da aceitação de contributos que, preservando o rigor académico, não se limitem aos modelos canónicos de escrita académica e de pensamento (fal)logocêntrico. Ao abrir espaço a formas experimentais, híbridas e baseadas na prática de produção de conhecimento, este número procura reconhecer a investigação artística e as práticas artivistas como modos interligados e legítimos de investigação e de envolvimento político, capazes de desafiar epistemologias dominantes e resistir a formas necropolíticas de poder.

São bem-vindas submissões de artigos académicos, ensaios visuais e outras contribuições híbridas que se envolvam criticamente com a relação entre artivismo, reexistência e resistência às forças necropolíticas.

Tópicos possíveis incluem, mas não se limitam a:

  • Artivismo visual e práticas de reexistência
  • Cultura visual e necropolítica
  • Práticas artísticas decoloniais e antiextrativistas no domínio do visual
  • Políticas de género e queer de reexistência através do artivismo visual
  • Artivismo visual ecológico
  • Artivismo visual e migração
  • Artivismo visual digital contra o tecnocapitalismo
  • Artivismo como prática pedagógica no campo das artes visuais
  • Artivismo, corporalidades e novas visualidades
  • Artivismos, eco- e tecnoperformances no campo da cultura visual

DATAS IMPORTANTES

Período de submissão de propostas (textos integrais): de 10 de março a 24 de maio de 2026

Período de publicação: edição contínua (julho a dezembro de 2026)

LÍNGUA

Os artigos podem ser submetidos em inglês ou português. Os artigos selecionados para publicação serão traduzidos para português ou inglês, respetivamente, sendo publicados integralmente em ambos os idiomas.

EDIÇÃO E SUBMISSÃO

A Vista é uma revista académica de acesso livre, funcionando de acordo com exigentes padrões de revisão por pares, operando num processo de dupla revisão cega. Cada trabalho submetido será enviado a dois revisores previamente convidados a avaliá-lo, de acordo com a qualidade académica, originalidade e relevância para os objetivos e âmbito da revista.

Os originais deverão ser submetidos através do website da revista (https://www.revistavista.pt). Se está a aceder à Vista pela primeira vez, deve registar-se para poder submeter o seu artigo (indicações para se registar aqui).

O guia para os autores pode ser consultado aqui.

Para mais informações, contactar: vista@ics.uminho.pt

Referências

Adeyemo, D., & Oliver, C. (2020–2021). The cosmogony of (racial) capitalism [Filme/Multimédia]. Empathy Revisited, 5th Istanbul Design Biennial, Istambul, Turquia.

Berger, J. (1972). Ways of seeing. British Broadcasting Corporation.

Bullard, R. D. (Ed.). (1993). Confronting environmental racism: Voices from the grassroots. South End Press.

Capous-Desyllas, M., & Morgaine, K. (Eds.). (2018). Creating social change through creativity: Anti-oppressive art-based research methodologies. Palgrave.

Correch, M. (2019). Decolonizing artivism. Nuart Journal, 1(2), 104–106.

Demos, T. J. (2020). Blackout: The necropolitics of extraction. In E. Steinbock, B. Ieven, & M. de Valck (Eds.), Art and activism in the age of systemic crises: Aesthetic resilience (pp. 43–67). Routledge. https://doi.org/10.1515/9781478012252-004

Estupiñan Valencia, D. (2021). Victims of development, Afrourban communities, and dynamics of re-existence in Buenaventura. In S. Federici, L. Mason-Deese, & S. Draper (Eds.), Femicide and global accumulation: Frontline struggles to resist the violence of patriarchy and capitalism (pp. 28–36). Common Notions.

Fanon, F. (2008). Black skin, White masks (C. L. Markmann, Trad.). Pluto Press. (Original work published 1952)

Fernandes, C. S., Herschmann, M., Rocha, R. de M., & Pereira, S. L. (Eds.). (2022). Artivismos urbanos: Sobrevivendo em tempos de urgências. Sulina.

Freire, P. (2019). Pedagogia da liberdade: Ética, democracia e coragem cívica. Editora Paz e Terra.

Freitas, M. (2019). Os corpos dissidentes de gênero nas artes visuais como reação à necropolítica. Hipocampo. https://hipocampo.space/os-corpos-dissidentes-de-genero-nas-artes-visuais-como-reacao-a-necropolitica/

Glockner, V., Borzacchiello, E., Torres, R. M., Faria, C., Danze, A., Herrera-Martínez, E., García-Figueroa, G., & Niño-Vega, N. (2024). The cuerpo territorio of displacement: A decolonial feminist geopolitics of re-existencia. Geopolitics, 29(4), 1220–1244. https://doi.org/10.1080/14650045.2023.2213639

Groys, B. (2014). On art activism. E-flux Journal, (56), 1–10.

Herwitz, D. (2021). The political power of visual art: Liberty, solidarity, and rights. Bloomsbury.

hooks, b. (1992). Black looks: Race and representation. South End Press.

Hurtado, L. M., & Porto-Gonçalves, C. (2022). Resistir y re-existir. GEOgraphia, 24(53), 1–10. https://doi.org/10.22409/GEOgraphia2022.v24i53.a54550

Kilomba, G. (2019). Plantation memories: Episodes of everyday racism. Transcript Verlag.

Lacey, P. (2020). Method meets art: Arts-based research practice. Guilford Publications.

Lacy, S. (2010). Leaving art: Writings on performance, politics, and publics, 1947–2007. Duke University Press.

Mbembe, A. (2016). Politiques de l’inimitié. Editions La Découverte.

McLeod, K., & Holdridge, L. (Eds.). (2006). Thinking through art: Reflections on art as research. Routledge.

Mirzoeff, N. (1999). An introduction to visual culture. Routledge.

Mulvey, L. (1989). Visual and other pleasures. Palgrave.

Ogula, V. (2025). Necropolitics and necropolice: Death, immortality, and art-activism in Russia. International Political Sociology, 19(2), 1–20. https://doi.org/10.1093/ips/olaf006

Santos, A. B. dos. (2015). Colonização, quilombos: modos e significados. Instituto INCTI/UnB.

Santos, A. B. dos. (2023). A terra dá, a terra quer. Ubu Editora.

Serafini, P. (1999). Performance action: The politics of art activism. Routledge.