Repensar a Produção de Conhecimento Sobre as Migrações Portuguesas Através da Articulação Entre Artes e Academia: O Festival “A Arte de Ser Migrante”

Autores

DOI:

https://doi.org/10.21814/vista.7091

Palavras-chave:

migrações portuguesas, abordagem participativa, evento cultural, metodologia sensorial, memória

Resumo

Durante muito tempo, a produção de conhecimento na Europa assentou em epistemologias que marginalizam o corpo. Os sentidos não visuais têm sido sistematicamente desvalorizados. Com base em trabalhos que colocam a sensorialidade e as emoções no centro dos estudos das migrações, este artigo sustenta que a atenção à experiência sensorial promove a reflexividade e permite renovar a compreensão dos processos macro, meso e micro que moldam a identidade e o sentimento de pertença. Da autoria de uma socióloga e de uma geógrafa com interesses comuns nas mobilidades intraeuropeias portuguesas e em metodologias criativas, e de uma fotógrafa, o artigo analisa um evento cultural de quatro dias, organizado em Lisboa em 2025, que reuniu artistas, académicos e profissionais dos média. O festival “A Arte de Ser Migrante” procurou ultrapassar os formatos académicos convencionais e prestar homenagem aos migrantes portugueses e aos seus descendentes, enquanto questionava as narrativas públicas sobre as migrações portuguesas. Através de debates, exibições de filmes, exposições, oficinas e atividades sensoriais envolvendo som, visão, tato, paladar e movimento, o evento reuniu um público heterogéneo e convidou os e as participantes a abordar a migração como uma experiência multissensorial e emocionalmente densa.
Com base neste terreno empírico, o artigo desenvolve três contributos: (a) uma reflexão sobre a visibilidade e invisibilidade das migrações portuguesas; (b) uma análise de eventos culturais participativos enquanto espaços de produção colaborativa e transdisciplinar de conhecimento; e (c) uma exploração das abordagens sensoriais e sensíveis enquanto ferramentas para revelar lacunas na investigação sobre as migrações portuguesas. Concluímos concetualizando o festival como um ato de resistência e, simultaneamente, como ponto de partida para um “ofício” epistémico em contínuo desenvolvimento — capaz de gerar novas colaborações e de abrir novas vias de produção de conhecimento a longo prazo.

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Biografias do Autor

  • Liliana Azevedo, Centro de Investigação e Estudos de Sociologia, Iscte - Instituto Universitário de Lisboa, Lisboa, Portugal

    Liliana Azevedo é socióloga e investigadora no Centro de Investigação e Estudos em Sociologia do Iscte – Instituto Universitário de Lisboa. É também investigadora associada do Observatório da Emigração em Portugal. A sua investigação centra-se na migração de regresso, envelhecimento, famílias transnacionais, relações intergeracionais, género, percurso de vida, cultura material e homemaking, bem como em métodos biográficos e visuais. Os seus trabalhos estão publicados em várias revistas científicas, incluindo Ethnic and Racial Studies.

  • Amandine Desille, Centro de Estudos Geográficos, Instituto de Geografia e Ordenamento do Território, Universidade de Lisboa, Lisboa, Portugal

    Amandine Desille é geógrafa e investigadora no Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa. A sua investigação centra-se na migração internacional, governação local, produção de lugares e metodologias visuais e multissensoriais. Tem publicado os seus trabalhos em várias revistas científicas, incluindo Political Geography, Governance e Territory, Politics, Governance. Coorganizou o livro Visual Methodology in Migration: New Possibilities, Theoretical Implications, and Ethical Questions (Metodologia Visual na Migração: Novas Possibilidades, Implicações Teóricas e Questões Éticas; Springer, 2021), distinguido pela rede europeia International Migration Research Network. Produziu ainda três filmes etnográficos.

  • Estelle Valente, Investigadora independente, Lisboa, Portugal

    Estelle Valente é fotógrafa, nascida em Paris, cidade com a qual mantém uma profunda ligação. Adotou Lisboa, de cujo sol diz não prescindir, há uns 15 anos. Em 2012, começou a fotografar a fadista Gisela João, que, ainda hoje, acompanha. Entre 2015 e 2024, colaborou com o Teatro Municipal São Luiz (Lisboa), fotografando espetáculos e criando imagens para as suas campanhas de comunicação. Realizou a sua primeira exposição individual, Carla no Papel (2018), em Setúbal, onde a atriz Carla Maciel encarna grandes divas do cinema do século passado. Realizou uma residência artística no Espace Cardin em Paris e, por ocasião do 20.º aniversário do Prémio Nobel de José Saramago, foi convidada por Anabela Mota Ribeiro a ilustrar Por Saramago. Colabora, desde 2019, com a revista GQ, para a qual faz retratos de personalidades ligadas à cultura. Foi docente na Academia Gerador durante quatro anos.

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Publicado

2026-05-07

Como Citar

Repensar a Produção de Conhecimento Sobre as Migrações Portuguesas Através da Articulação Entre Artes e Academia: O Festival “A Arte de Ser Migrante”. (2026). Vista, 17, e026005. https://doi.org/10.21814/vista.7091

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