Migração e Conflito Sírio: A Narrativa por Trás da Imagem

Autores

  • Suzana Ramos Coutinho Centro de Educação, Filosofia e Teologia, Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, Brasil/Centro de Humanidades, Faculdade de Ciências Sociais, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Brasil https://orcid.org/0000-0002-5629-1914
  • Jesner Esequiel Santos Centro de Educação, Filosofia e Teologia, Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, Brasil https://orcid.org/0000-0001-7705-657X

DOI:

https://doi.org/10.21814/vista.3650

Palavras-chave:

migração, Síria, guerra, política, fotografia

Resumo

Este artigo visa pensar os fluxos migratórios e o papel político da imagem utilizando como referência a guerra na Síria. A fotografia de Hamza Al-Ajweh intitulada “Uma criança síria caminha por uma rua passando por escombros de edifícios destruídos na cidade controlada pelos rebeldes de Douma no enclave Ghouta Oriental, nos arredores de Damasco”, tirada em 8 de março de 2018 e publicada pela primeira vez no Los Angeles Times, servirá como ponto de referência para a discussão e análise aqui proposta. A complexidade dos deslocamentos neste contexto específico de guerra nos encaminha para a necessidade de conceituação da mobilidade síria após o início da guerra em 2011, entendendo que esta complexidade vai muito além das definições formais utilizadas pelos órgãos internacionais. Para um entendimento mais preciso do debate, estruturamos a discussão em três partes, apresentando primeiramente uma breve contextualização sobre o conflito na Síria, que teve início com a Primavera Árabe e que prossegue até a atualidade. Esta contextualização sociopolítica serve aqui como pano de fundo para discutirmos não somente categorias migratórias genéricas, mas também para melhor auxiliar o entendimento sobre pessoas, movimentos e a demanda por novas categorias e reflexões visuais que ultrapassam as perspectivas já estabelecidas. No final, discutiremos como a fotografia do fotógrafo Hamza Al-Ajweh nos auxilia a pensarmos múltiplos aspectos políticos e transformadores da imagem.

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Submetido: 30/10/2021 | Revisto: 29/11/2021 | Aceite: 28/12/2021 | Publicado: 31/01/2022

Introdução

O deslocamento enquanto fenômeno coletivo e individual é um movimento com diferentes etapas e perspectivas que, dependendo dos interesses temáticos das várias disciplinas que o elegem como objeto de estudo, inclui, conforme Santos et al. (2014), três possíveis abordagens: (a) a emigração (ou as múltiplas condições sociais, políticas, econômicas, etc., que motivam o deslocamento), (b) as questões sociais decorrentes do estabelecimento temporário ou definitivo em outro país, e (c) os desdobramentos através da obtenção de novos espaços (inclusive na arena política), objetivando a “integração numa outra sociedade e/ou construindo a diferença cultural (etnicidade) e formas de pertencimento coletivo que podem produzir debates, antagonismos e desigualdades sociais” (p. 11).

Apesar de tantas categorizações, é preciso apontar que os estados nacionais têm tratado, invariavelmente, as migrações internacionais de forma generalista, sem considerar os elementos específicos e individuais que as motivaram, fazendo com que muitos solicitantes de refúgio — que utilizam os mesmos mecanismos e rotas dos migrantes voluntários, econômicos, entre outras categorias — sejam prejudicados no acesso ao reconhecimento de seus direitos. Esta realidade, apontam Silva et al. (2017), tem influenciado os debates sobre os fluxos migratórios tanto na academia como nos órgãos protetivos e de promoção de ações para os refugiados. Os autores alegam que, desde a segunda metade do século XX, os estudos sobre as migrações alertam para a complexidade da questão social que envolve o tema e para o fato de que sua análise e compreensão não poderiam partir apenas de um viés cognitivo.

Em um contexto social tão conturbado, a imagem se mostra instrumento/recurso analítico para o entendimento do fenômeno proposto. Como entender a relação entre visibilidade e o político no discurso público sobre migração? Como podemos representar visualmente pessoas que são barradas dos seus direitos de representação (política, religiosa, identitária) e como essas representações visuais podem ganhar destaque político? Esta percepção pública sobre o tema, segundo Köhn (2016, p. 4), é profundamente formatada pelas representações da mídia. Neste sentido, as imagens têm se tornado uma parte integral e relevante no processo de regulação de políticas migratórias: as imagens ajudam a produzir as categorias de “legalidade” e “ilegalidade”, elas reforçam estereótipos e mobilizam convicções políticas.

No contexto deste artigo, utilizaremos a perspectiva teórica de diversos autores para trazer luz ao debate aqui proposto, que visa pensar os fluxos migratórios e o papel político da imagem neste contexto, utilizando como referência a guerra na Síria. A fotografia de Hamza Al-Ajweh intitulada Uma criança síria caminha por uma rua passando por escombros de edifícios destruídos na cidade controlada pelos rebeldes de Douma no enclave Ghouta Oriental, nos arredores de Damasco”, tirada em 8 de março de 2018 e publicada pela primeira vez no Los Angeles Times (Bulos, 2018), servirá como ponto de referência para a discussão e análise aqui proposta. A complexidade dos deslocamentos neste contexto específico de guerra nos encaminha para a necessidade de conceituação da mobilidade síria após o início da guerra em 2011, entendendo que esta complexidade vai muito além das definições formais utilizadas pelos órgãos internacionais. Para um entendimento mais preciso do debate, estruturamos a discussão em três partes, apresentando primeiramente uma breve contextualização sobre o conflito na Síria, que teve início com a Primavera Árabe e que prossegue até a atualidade (Ozkizilcik, 2021). Esta contextualização sociopolítica serve aqui como pano de fundo não somente para discutirmos categorias migratórias genéricas, mas também para melhor auxiliar o entendimento sobre pessoas, movimentos e a demanda por novas categorias e reflexões visuais que ultrapassam as perspectivas já estabelecidas. No final, discutiremos como a fotografia de Hamza Al-Ajweh nos auxilia para pensarmos múltiplos aspectos políticos e transformadores da imagem.

O Leitor no Campo de Guerra

O fenômeno sociopolítico conhecido como a "Primavera Árabe" não pode ser definido através de um único momento na história, pois sua complexidade gera uma constante variável nas análises realizadas sobre esse movimento. Não há um único fator que permeia os países envolvidos, de forma isolada, mas uma série de ações que culminaram nas diversas revoltas populares (Momani, 2014) e no maior conflito urbano já visto. Temos o exemplo do que ocorreu nas cidades de Alepo, Homs e Damasco, todas na Síria. No entanto, existem pontos focais que são comumente apontados como os propulsores das revoltas populares, que aconteceram após o ano de 2010 na Tunísia, Jordânia, Iraque, Egito, Líbano, Argélia, Sudão e Síria (Ianchovichina & Devarajan, 2021, p. 2).

O primeiro propulsor foi registrado em dezembro de 2010 na Tunísia, quando um jovem, que possuía formação universitária, mas não conseguia um emprego por causa da crise vivenciada em seu país, começou a vender frutas e legumes em uma barraca. Em pouco tempo de trabalho, ele foi impedido pela polícia local, que solicitou o pagamento de uma propina para que ele pudesse prosseguir com suas vendas. O resultado desse embate foi inesperado, pois o jovem, Mohamed Bouazizi (1984–2011), colocou fogo em seu corpo como uma forma de protesto, morrendo no hospital pouco tempo depois, por conta dos ferimentos. Tal ato gerou uma grande revolta na população, principalmente nos jovens de classe média, que estavam na mesma condição social de seu novo mártir (Momani, 2014).

Esses jovens universitários foram os responsáveis pela organização inicial dos protestos (Momani, 2014), criando grupos de discussão nas mídias sociais e publicando suas indignações. Em breve, muitos deles estariam nas ruas, com uma pauta diversificada, mas com um objetivo em comum, derrubar os líderes do governo. Por isso, muitos denominam tal ato como a "revolução das mídias sociais", como podemos ver no documentário produzido pela Middle East Eye (Fayyad, 2021). Os líderes dos países envolvidos utilizavam a violência como forma de repressão e contenção, no entanto, tal ato gerou ainda mais adeptos aos protestos, criando um “efeito dominó”. A população, em pouco tempo, retira do poder seus líderes, que já governavam há décadas, sem alternância. Para isso, muitos utilizavam a mesma ferramenta do governo, a violência, surgindo grupos rebeldes e mais facções armadas (Ianchovichina & Devarajan, 2021, p. 2).

O presidente da Tunísia, Zine El-Abidine Ben Ali, que estava no poder desde 1987, fugiu para a Arábia Saudita em apenas 10 dias de protestos. O presidente do Egito, Hosni Mubarak, no poder há mais de 30 anos, renunciou em apenas 18 dias. Em alguns países, os protestos caminharam para uma dimensão mais bélica, como no caso da Líbia, que tinha Muamar Kadafi no poder desde 1969, porém, em apenas 2 meses foi capturado e morto. O último presidente a ser destituído do poder, na fase inicial da Primavera Árabe, foi Abdullah Saleh, presidente do Iêmen, que sofreu um grave atentado em uma mesquita e foi perseguido durante meses, até que decidiu renunciar, com medo de sofrer mais retaliações (Bowen, 2012).

Na Síria, o desenrolar da Primavera Árabe foi diferente, visto que nem mesmo o líder daquele país acreditava que sua população fosse aderir a tal movimento (“Interview With Syrian President Bashar al-Assad”, 2011). Há um evento propulsor, assim como nos demais, quando as forças policiais do presidente, Bashar al-Assad, prendem uma dúzia de crianças por terem feito pichações contra o governo, na cidade de Dara, cuja população era de maioria sunita. Surgem diversos protestos motivados pelo rápido sucesso dos países ao redor da Síria, mas, novamente, não há uma unidade nas solicitações da população, pois eles pedem

liberdade de imprensa, a abolição do artigo 8.º da Constituição − que afirma que o Partido Baath “dirige o Estado e a sociedade” − e a suspensão do Estado de emergência, em vigor desde que o Baath tomou o poder em 1963. (Seale, 2011, para. 3)

Além de alguns grupos, mais extremistas, solicitarem a rendição de Assad e sua morte.

Em março de 2011, as forças militares, sob o comando do presidente, abrem fogo de maneira aleatória contra a população que participava nos protestos, matando diversos indivíduos que não ofereciam eminente perigo (Slackman, 2011). Esse ato gerou uma revolta ainda maior, fazendo com que alguns militares abandonassem seus postos e se unissem ao recém formado Free Syrian Army (FSA), grupo de oposição ao atual governo, formado por muitas pessoas sem o menor preparo militar, utilizando armamentos improvisados e seguindo as mais diversas linhas de interpretação acerca do Alcorão (Slim, 2012). Nesse momento, a Primavera Árabe na Síria toma um rumo incontrolável e o caos eminente chega a todos os âmbitos sociais daquele país, principalmente na vida daqueles que não desejam lutar pelo FSA ou que faziam parte de minorias étnicas e religiosas (Momani, 2014).

A religião é um divisor de águas (ou armas) na guerra civil síria, visto que a maior parte dos combatentes do FSA são sunitas (Slim, 2012), enquanto o exército tem predominantemente alauítas (Araújo, 2012). Além disso, existem diversos grupos religiosos minoritários, como os cristãos, drusos e os ismaelitas. Há também os grupos étnicos de menor concentração, se comparados ao restante da população, como os curdos. Essa divisão ocorreu pela forma como o país foi colonizado pelos franceses (1920–1946) e pela estrutura geográfica e religiosa, visto que o medo de uma revolta dos muçulmanos nacionalistas, de maioria sunita, fez com que a França buscasse líderes das minorias para participarem nos cargos públicos e forças militares (Fildis, 2012, p. 151).

Os fatores econômicos fizeram com que muitos alauítas, que residiam nas áreas rurais, vissem no exército uma maneira de sobrevivência, enquanto os sunitas tinham aversão, pois não queriam ser associados aos franceses, dizendo que esses cargos eram destinados para pessoas preguiçosas e/ou rebeldes, como Patrick Seale (1989) relata em seu livro Asad of Syria: The Struggle for the Middle East (Asad da Síria: A Luta Pelo Oriente Médio):

esse foi o erro histórico que levou as famílias, os mercadores e a classe dos donos de terras que eles faziam parte: escarneceram do exército como uma profissão, eles permitiram serem capturados pela classe inimiga, que passou a dominar o próprio Estado. (p. 39)

Os alauítas ocuparam os principais cargos do governo e do exército, possuindo o poder bélico e legislativo. Enquanto isso, a maior parte da população, que era sunita, não possuía a mesma estrutura bélica, ficando mercê de governos autoritários ou grupos terroristas (Kaplan, 1993). Portanto, na Síria, a religião separa os grupos politicamente e geograficamente, fazendo com que existam áreas protegidas pelo governo, enquanto outras necessitam de milícias para a manutenção da ordem, como no caso dos cristãos, que apoiam o governo de Bashar al-Assad por serem protegidos por ele (CNN, 2013), mas que, com o crescimento do FSA, são obrigados a fugir ou a comprarem armas para a sua própria proteção.

A guerra civil fez com que a diferença étnica e religiosa fosse ainda mais acentuada, pois nenhum alauíta ficaria contra o governo que o protegia, mesmo se discordasse da maneira de governar. Para acentuar o problema, há mais um grupo que busca dominar o território na Síria, aproveitando o caos, conhecido como Daesh ou Estado Islâmico, formado por remanescentes da Al-Qaeda do Iraque, de origem sunita, mas que lutam contra os rebeldes do FSA, que também são sunitas, mas não seguem a linha de interpretação salafista (Wood, 2016/2017, p. 80). Eles também lutam contra o governo alauíta de Assad, além de imporem a Sharia1 e de cometerem atrocidades nos grupos minoritários, trazendo mais um elemento de instabilidade para a população, que está na linha de ação de diversos grupos (Momani, 2014). Portanto, o perigo, a pobreza e o alto risco de morte rondam diariamente os habitantes da Síria, por todos os lados, fazendo com que a alternativa mais viável seja o deslocamento para países já apaziguados. Muitos fogem para países que fazem fronteira ou que são próximos à Síria. Outros buscam uma vida completamente diferente, nos países fora do Oriente Médio. Há também o confinamento em campos de refugiados espalhados pelo país, o que gerou uma certa aversão na população, pela falta de recursos e pela impossibilidade de ascensão, que poderia tirar muitos da miséria (Valenta et al., 2020, p. 158).

No que diz respeito à situação dos refugiados sírios, de acordo com o 2021 Needs and Response Summary (2021 Resumo das Necessidades e das Respostas; Syrian Arab Republic, 2021), publicado em fevereiro de 2021, há cerca de 13.400.000 de migrantes/refugiados necessitando de algum suporte humanitário, provenientes das cidades sírias. Esse número abrange mais de 55% da população pré-guerra da Síria. Estimativas oficiais apontam que 6.700.000 são migrantes/refugiados internacionais, enquanto 6.360.000 são deslocados internos que ainda residem na Síria e 320.000 pessoas são pessoas que retornaram ao país recentemente. Além disso, há uma série de fatores que dificultam a categorização dessas pessoas.

Podemos falar de refugiados sírios, requerentes de asilo, migrantes forçados, migrantes em trânsito, migrantes presos, menores desacompanhados, migrantes irregulares, migrantes mistos, migrantes naturalizados, trabalhadores migrantes, empresários, investidores e estudantes. Essa lista é apenas parcial e muitas das categorias não são mutuamente exclusivas. E nem são as categorias estáticas. (Valenta et al., 2020, p. 157)

Por mais que alguns canais da mídia tenham defendido a vitória de Bashar al-Assad (Glass, 2017) desde 2018, após a conquista de Dara, a Síria está longe de ser um país apaziguado (Ozkizilcik, 2021). Conforme ressaltamos anteriormente, a Síria é um país complexo, pois sua população não possui uma única etnia ou religião, portanto, para que uma pessoa retorne para a sua cidade de origem, seria necessário que tal área fosse dominada pelo grupo que ela apoia ou ao qual pertence.

Os deslocamentos internos foram, no entanto, para milhões de sírios, apenas uma etapa inicial do processo de migração; para muitos o processo evoluiu na emigração do país. Essas emigrações geraram várias categorias diferentes de migrantes — formais e informais. Valenta et al. (2020, p. 157) sugerem que é possível distinguir entre refugiados sírios, requerentes de asilo, migrantes forçados, migrantes em trânsito, migrantes presos, menores desacompanhados, migrantes irregulares, migrantes mistos, migrantes naturalizados, trabalhadores migrantes, empresários, investidores e estudantes. Além disso, afirmam os autores, essa lista é apenas parcial e muitas das categorias não são mutuamente exclusivas nem tampouco estáticas. Outro aspecto que vale ser mencionado diz respeito às múltiplas categorias atribuídas aos refugiados nos países anfitriões. O tipo de alojamento que lhes é fornecido, a trajetória durante o processo migratório, o status formal e o tipo de residência, os direitos sociais a que acessam e sua posição socioeconômica na sociedade receptora são exemplos de categorização — que aqui, vale dizer, nos importam, pois podem ajudar a estimular novos status de migrantes relevantes para os padrões de migração síria no período pós-guerra.

Encerramos esta parte enfatizando que esses fluxos e status de migração não são, de forma alguma, estáticos; eles se modificam na interação entre os elementos do sistema acima descritos e perante “as respostas individuais dos sírios às circunstâncias de vida, conforme definidas pelas estruturas e regimes delineados” (Valenta et al., 2020, p. 161).

Migração e Imagem: Perspectivas Teóricas e Políticas

As migrações contemporâneas são, em grande parte, produzidas e formatadas pelas demandas de um capitalismo globalizado, que é ambíguo e contraditório em sua natureza. Esta complexidade tem revelado que as análises e descrições sobre a mobilidade humana têm sido insuficientes. A guerra na Síria, por exemplo, já aponta que as categorias migratórias propostas têm se revelado insuficientes. Alguns autores — Jameson (1992), Köhn (2016), entre outros — têm apontado que já não podemos mais pautar o debate partindo de categorias que explicam a mobilidade de indivíduos a partir de orientações individuais. “Como os mecanismos e dinâmicas do capitalismo global não são visíveis, eles se apresentam como um problema de representação fundamental” (Jameson, 1992, p. 2). Compartilhamos da perspectiva de Jameson (1992) sobre o problema da representação, e vamos além: é preciso descolonizarmos o debate e também o olhar, entendendo que as grandes narrativas ocidentais sobre os processos migratórios precisam ser repensadas diante de um mundo com realidades cada vez mais complexas.

A imagem, no contexto deste artigo, não é pensada como um “veículo” que dá publicidade e que faz referência ao imigrante e sua experiência vivida, dando destaque ou revelando o fenômeno. A proposta aqui é pensar o fenômeno migratório com a ajuda das imagens, à luz delas. A proposta é unir a prática visual à reflexão teórica. À medida que experimentamos o mundo através de representações e retóricas visuais, o ato de ver e de tornar visível assume tremenda relevância teórica e política (Köhn, 2016, p. 4). A retórica visual, neste contexto, está focada no entendimento do modo como as imagens comunicam, como elas funcionam em um ambiente social e cultural, e como elas incorporam significados. No contexto da mídia, as imagens são vistas primeiramente como veículos de informação sobre eventos mundiais importantes, mas muitas vezes a estrutura dos meios de comunicação e as expectativas do leitor tornam a questão mais complexa. É preciso considerar as imagens veiculadas em meios de comunicação como parte de uma intrincada rede pertencente a um fenômeno cultural. A retórica é usualmente considerada como uma chave de persuasão, classicamente utilizada para nos convencer sobre um ponto de vista (na era moderna, muito utilizada para o convencimento de compra). No entanto, podemos considerar que a retórica também tem um papel importante na formação da identidade comunitária e na capacidade de reforçar crenças e estereótipos (Wright, 2016, p. 318).

A imagem aqui se apresenta como objeto de reflexão sobre a responsabilidade de desconstruir estes estereótipos, buscando novas e transformadoras formas de visibilidade que não reproduzam meramente o discurso visual do governo ou dos meios de comunicação de massa, mas que desafiem "a ordem política estabelecida revelando o propositadamente e deliberadamente escondido, articulando o que ainda não foi dito e sugerindo alternativas viáveis ao status quo” (Köhn, 2016, p. 4). As representações dos pesquisadores sobre a migração, no entanto, ainda esbarram no discurso distorcido produzido pela mídia. As grandes corporações midiáticas frequentemente produzem uma imagem ideológica e distorcida da migração que acaba influenciando inclusive o debate político. O desafio dos pesquisadores é não somente implementar um modo de produção de conhecimento não hierarquizado que se aproxime das experiências subjetivas destes migrantes, mas também “produzir um discurso deliberado que atenda a realidade vivida pelos migrantes” (Köhn, 2016, p. 8).

É importante destacar que somente recentemente os cientistas sociais têm começado a participar na expansão de circulação de representações midiáticas da migração. Alan Grossman e Aine O’Brien (2007, p. 6) foram os autores que primeiro forneceram uma visão mais geral deste campo, exaltando a prática da mídia como facilitadora de um entendimento mais profundo das condições vividas, contraditórias e muitas efêmeras que formam a vida dos sujeitos migrantes. Neste sentido, a proposta desta discussão é problematizar a fotografia como um recurso de entendimento para nos colocar mais próximos da experiência migrante e como estas imagens e textos podem comunicar, ainda que parcialmente, elementos deste emaranhado de percepções nos processos de escala global.

Torna-se cada vez mais importante analisar não somente a capacidade de imagens e de textos criarem novos discursos, mas também a necessidade de examinar o contexto social e institucional restritos à sua função. É fato que o poder da mídia tem recebido pouca atenção nas pesquisas sobre a representação da migração (Wright, 2002). Tomamos como exemplo a reflexão proposta por Malkki (1995), que apontou que “retratos fotográficos de refugiados são, em nossos dias, extremamente abundantes. A maioria dos leitores provavelmente já viu essas fotos, e a maioria de nós tem um forte sentido visual de como é ‘um refugiado’” (p. 9). A representação visual e textual de migrantes desempenha um papel essencial, mas negligenciado na formação de estereótipos sobre estes grupos.

Nas ciências sociais e humanidades, de um modo geral, há uma tendência a desconsiderar o impacto político que nossas representações possam gerar. Arjun Appadurai (1988) reivindicou que não deveríamos reduzir nossos trabalhos a meras descrições do presente, mas sim que imaginemos possibilidades e futuros possíveis mais do que nos submetermos a imposições de mudanças externas.

Burgin (1982, como citado em Langmann & Pick, 2018) alega que as fotografias cativam, e tornou-se quase impossível passar um dia sem ver uma fotografia. A sociedade contemporânea tem testemunhado uma explosão do visual através de fotografias e o impacto imediato e multissensorial das fotografias (Spencer, 2011) foi reconhecido e elevado a uma posição de poder para acessar a memória cognitiva e comunicar mensagens aparentemente complexas com simplicidade visual (Bell & Davison, 2013). A fotografia constitui um elemento e uma forma no campo da pesquisa visual e de imagens, que são termos guarda-chuva que se referem a práticas de pesquisa conectadas que estão ligadas à aparência visual do mundo circundante (Warren, 2005).

A experiência dos conflitos de nosso tempo, seja em torno de questões de autonomia, soberania ou nacionalidade, é moldada principalmente por representações visuais e grande parte da política contemporânea é, portanto, conduzida por meio da cultura visual. Reconhecendo o quanto as imagens se tornam participantes autônomas na construção do significado social, lançamos mão da discussão proposta por Roland Bleiker (2012), que defende uma forma mais estética do pensamento político. O autor propõe um engajamento estético com o mundo político com base na compreensão de que fontes estéticas oferecem insights valiosos que outros métodos científicos de investigação são incapazes de explicar.

Compartilhamos da perspectiva de Ariella Azoulay (2008), que propõe uma ontologia política da representação visual que promove a compreensão das imagens como agentes ativos nas relações sociais. Ao nortear o seu trabalho a partir de fotografias de palestinos nos territórios ocupados por Israel, Azoulay descreve como as imagens podem oferecer um espaço de cidadania para aqueles que não pertencem ou não recebem proteção do poder soberano de um Estado-nação. A autora vê um “contrato civil” inscrito na fotografia, onde o fotógrafo, o fotografado e o observador da fotografia participam. Como nenhum fotógrafo pode reivindicar a propriedade do que aparece na fotografia nem determinar seu único significado, as pessoas fotografadas podem usar sua imagem para reivindicar os direitos que lhes são negados pelo Estado. Os espectadores são tratados pela fotografia como “espectadores universais” que estão ligados em uma forma de dever cívico com o fotografado e, portanto, são convidados a assumir a responsabilidade por “testemunhar o insuportável” (Azoulay, 2008, p. 18). A representação visual pode, portanto, oferecer àqueles que são excluídos da representação política uma primeira chance de articular as maneiras pelas quais foram dominados. Para a autora, o indivíduo se torna um cidadão por meio da fotografia — não apenas por ser fotografado, mas em virtude de ser visível em um mundo em que a mídia visual dá reconhecimento público a potencialmente todos, em que (dada a onipresença das câmeras como ferramentas para as massas) a fotografia é sempre um “evento potencial” (Azoulay, 2012, p. 22). A fotografia permite, assim, que os seus cidadãos se façam aparecer em público, se apresentem perante ele e dialoguem com o público através das imagens.

Para Azoulay (2012), no entanto, as imagens documentais nunca podem ser “muito estéticas”, porque sempre documentam as relações e negociações entre o fotógrafo e os sujeitos, sempre retratam o contexto político em que foram criadas. A fotografia na percepção da autora é sempre o produto de um encontro entre cidadãos: as suas análises de imagens da história da fotografia exploram em detalhe como os fotografados têm usado continuamente o “evento da fotografia” para contestar publicamente as injustiças. Azoulay (2012) desmonta assim o binário entre o espaço do político (que, para ela, é inerente a todo encontro entre os seres humanos) e o espaço da estética, tornando esses dois espaços um só.

A Narrativa por Trás da Imagem: O Caso da Foto de Hamza Al-Ajweh

Uma vez que já contextualizamos brevemente a cena sociopolítica da guerra na Síria e apresentamos alguns instrumentos analíticos possíveis para um melhor entendimento sobre o poder político da imagem, passamos agora a analisar o discurso visual em torno de temáticas migratórias e as políticas de (in)visibilidade nele inscritas. Utilizaremos a imagem de Hamza Al-Ajweh, publicada pela primeira vez em 2018 no jornal Los Angeles Times e veiculada outras inúmeras vezes em sites e jornais de notícias. Esta imagem nos servirá aqui como recurso metodológico para pensarmos o papel da imagem como elemento ativo de transformação e visibilidade.

É importante notar que a escolha desta imagem específica não se deu de modo aleatório no contexto deste artigo. Antes, levou em conta o impacto que gerou nos canais jornalísticos oficiais, tanto no contexto ocidental como no oriente médio. Destacamos aqui também o lugar do fotógrafo, Hamza Al-Ajweh, no contexto em debate. Nascido em Damasco, uma das cidades mais afetadas pelo conflito, o fotógrafo é hoje refugiado sírio vivendo em Istambul, na Turquia — cidade com o maior número de refugiados sírios. Contrário ao ditador Bashar al-Assad, Al-Ajweh é ativista e tem atuado de modo militante através fotografia, denunciado os horrores da guerra nas fotografias publicadas em suas redes sociais.

Nas últimas 2 décadas, assistimos a uma aceleração crescente tanto da migração de pessoas como da circulação de imagens. Para Wright (2002, p. 53), o poder e o significado das imagens e representações visuais se tornaram uma questão urgente de preocupação acadêmica. Essas abordagens ofereceram uma iconologia crítica dos estereótipos visuais e dos clichês nos quais a migração é frequentemente retratada. Revelam, ainda, os pressupostos que essas representações implicam e exploram nas práticas de exclusão social nelas inscritas.

A maioria dos estudos que se envolvem analiticamente com a representação visual de migrantes no discurso da mídia de massa criticam o uso de distorções e clichês. Terence Wright (2002), por exemplo, analisa diversas fotos de imprensa retratando migrantes e aponta que muitas destas imagens referem-se à iconografia cristã para construir a imagem do refugiado indefeso e vitimado. Francesca Falk (2010) explora o tema do barco (superlotado) como uma metáfora visual e verbal no discurso sobre refugiados e asilo. A autora mostra como é frequentemente associada à invasão em campanhas políticas anti-migração. Estes e outros trabalhos, como o de Kafehsy (2010), revelam como os migrantes são criminalizados ou descritos como vítimas passivas sem agência. Assim, eles visam descobrir os preconceitos, o "inconsciente" ideológico das representações dos meios de comunicação de massa.

Teun van Dijk (1999) tem explorado o campo de estudos sobre racismo e meios de comunicação, enfatizando as representações das minorias étnicas constituídas de imigrantes na mídia impressa em diversos países. O autor tem destacado o silêncio sistemático ou a subvaloração de experiências da vida cotidiana, dos papéis não estereotipados e dos êxitos e contribuições dessas minorias no campo das artes, da política e da economia, em favor de imagens negativas e de uma perspectiva de criminalização das experiências migratórias como especificidades do agendamento midiático no contexto das sociedades estudadas. “Nomeados como ilegais, clandestinos, irregulares, refugiados, deportados, os imigrantes são alvos de uma semantização negativa e ‘policialesca’ que inclui intolerância, violência, desemprego, isolamento, preconceito, pobreza, condenação, fiscalização, deportação, expulsão, tráfico ou detenção” (Cogo, 2001, p. 17). Os títulos de algumas das matérias mapeadas sugerem a ênfase em uma “criminalização” em que os imigrantes, embora cheguem a ocupar a posição de sujeito, aparecem, na maioria das vezes, como “pacientes” ou “experimentadores” das ações de “outros”, geralmente as autoridades ou os aparatos policiais.

O entendimento sobre a construção de uma agenda midiática sobre a experiência migratória começa a ser construído a partir de uma aproximação empírica inicial com aquilo que Cogo (2001) vai chamar de “ofertas de sentido” (p. 15). A mídia impressa se constitui, segundo ela, em esfera privilegiada de oferta de “sentidos” a autoridades, especialistas e demais atores sociais incumbidos da formulação de políticas e da tomada de decisões em diferentes campos sociais. No entanto, para van Dijk (1999), o poder dos meios de comunicação não deve ser compreendido em termos de “efeitos” simplistas. Embora não faça uma reflexão sobre recepção, o autor argumenta que as diferenças socioeconômicas e socioculturais interferem na forma como as pessoas interpretam, representam e avaliam as matérias jornalísticas e os eventos noticiosos e, consequentemente, em como formam opiniões, atitudes e ideologias diferentes. Nesse sentido, é importante ressaltar que os meios de comunicação são extensões das lutas e das partilhas simbólicas da sociedade. Como lembra Maigret (2003/2010), “os meios de comunicação são espaços onde atuam a formação, a reprodução e a contestação de um conjunto de práticas e de crenças, misturando indissociavelmente poder e cultura, e cada um desses elementos se lê no outro” (p. 309).

Neste processo crítico de (des)construção de estereótipos em torno da imagem e pensando na imagem como elemento ativo nas relações sociais, o processo de visualização se torna uma interação dinâmica entre o fotógrafo, o espectador e a imagem; o significado é construído ativamente, não recebido passivamente. Barthes (1982/1990) caracteriza as fotografias como “polissêmicas”, capazes de gerar múltiplos significados no processo de visualização. Em muitos sentidos, a fotografia de Hamza Al-Ajweh aponta para este caráter polissêmico, revelando múltiplas camadas de análise e interpretação.

Os esforços para compreender o que uma fotografia representa de diferentes perspectivas ainda não produziram conclusões inequívocas (Soszynski, 2006). O atributo de representação de uma fotografia cobre uma variedade de conceitos. Scruton (1981, como citado em Langmann & Pick, 2018) argumenta que

uma fotografia pode representar uma relação: x (a fotografia) representa y (o assunto). No entanto, uma relação causal simples não consegue explicar a representação completa de uma fotografia, uma vez que está ausente de pensamento, intenção ou outros atos mentais. (p. 580)

Em vez disso, uma fotografia representa um local de intertextualidade complexa com séries de textos sobrepostos, tornando-se textos-objeto com intenção e significado social (Burgin, 1982). Essa intertextualidade relacional de uma fotografia é definida por Brummitt (1973) como representando uma comunicação. Gerhard Richter (como citado em Coulter, 2013) afirma que uma fotografia não representa nada e introduz a necessidade de interpretação do observador para que a fotografia atinja um status representativo. Para Richter (como citado em Coulter, 2013), as fotografias não são um meio portador da realidade, mas sim um meio que desafia o real e argumenta que a representação fotográfica está mais próxima de um enigma que precisa ser decifrado, do que de clareza e ideologia.

Por que apenas determinados eventos e fotografias chamam a atenção das pessoas? Marks (2008) conceitua imagens como veículos que envolvem o passado por meio da experiência e levanta a hipótese de uma relação triádica entre imagem, experiência e informação, pela qual nós, como espectadores, desdobramos seletivamente seu significado e percebemos sua utilidade. As imagens são desdobramentos seletivos da experiência e são determinadas pela informação. Estão envolvidas pela experiência, mas também se desdobram pela experiência, que se traduz em informação, que se torna útil para o espectador (Marks, 2008). A seleção e o desdobramento das imagens acontecem de acordo com o interesse do espectador em questão, determinando quais imagens são dignas de circulação. Dados (2010) argumenta que as imagens não são desdobradas apenas pela experiência, mas também são selecionadas e não selecionadas com base nas informações, tornando as experiências inseridas na imagem acessíveis ou inacessíveis.

Neste sentido, a fotografia de Hamza Al-Ajweh nos lembra que precisamos ir além da imagem em si e explorar sua complexidade conceitual, seus insights e suas muitas interpretações, que nos ajudam a entender o que as fotografias em um contexto de pesquisa social representam e por que são um componente importante para e na pesquisa social. Um elemento muitas vezes ignorado diz respeito à dificuldade de compreensão da narrativa quando não conhecemos a história e o contexto da imagem — especialmente em cenários complexos como a guerra na Síria. A foto de Al-Ajweh indica uma imagem que é produzida no contexto de uma guerra, apontando o sofrimento e uma possível solidão/abandono/errância de uma criança que caminha entre os escombros de uma cidade devastada por algum severo bombardeio. Ao indicar na foto uma criança caminhando sozinha entre os escombros, subentende-se que a criança (sobre)vive na região atingida, o que dá ampla dramaticidade à cena. O contexto de destruição que emoldura a fotografia revela não somente a intensidade do bombardeio, mas também o potencial de morte deste evento: os carros amassados entre os escombros e as fachadas destruídas e irreconhecíveis apontam simbolicamente para um apagamento absoluto dos registros e das memórias cotidianas. O homem de costas, que caminha no sentido contrário à criança, indica dispersão e solidão. Os tons predominantes de cinza retratam não somente a poeira de concreto suspensa no ar, mas também indicam a frieza da cena retratada.

No entanto, é preciso considerar os aspectos polissêmicos da imagem e irmos além, pensando a imagem como um elemento ativo nas relações sociais. Em 2018, muitas cidades foram retomadas pelo governo de Bashar al-Assad e estavam em franco processo de reconstrução (Daher, 2019, p. 3). Ao contextualizar politicamente a imagem, a narrativa se transforma. A cena fria e dramática descrita no parágrafo acima, quando colocada em contexto, retrata esperança de transformação. O menino que caminha na direção do observador da foto, olhando para a frente, dá as costas ao homem que caminha em sentido contrário; um passado que não se revela na foto. A perspectiva de um futuro com esperança de reconstrução ao invés do retrato da dor e do desespero.

A narrativa da foto é compreendida e a intenção do fotógrafo exposta quando lemos a matéria publicada em 8 de março de 2018 pelo Los Angeles Times. A reportagem aponta para um combate intensificado na região de Douma entre os rebeldes do FSA e as forças do governo. Há relatos de que armas químicas foram utilizadas e que muitas crianças morreram. Por isso, o papel do fotógrafo Hamza Al-Ajweh ganha uma dimensão carregada de múltiplos significados. Sua fotografia é utilizada como uma denúncia que visa a ação de autoridades competentes internacionais. Seu objetivo e de outros fotógrafos/ativistas é alcançado apenas parcialmente, já que não houve avanço nas investigações ou nas ações militares que pudessem intervir na guerra civil. O acesso aos locais que as fotos e vídeos revelaram foi dificultado pelo governo sírio, fazendo com que muitos órgãos internacionais desistissem ou adiassem suas análises. Podemos contemplar o exemplo da Organização das Nações Unidas que decidiu, em 2018, enviar equipes responsáveis pela averiguação dos fatos, mas sem êxito (Kimball & Davenport, 2021). Além disso, muitos países ocidentais se envolveram no conflito salientando que, se houvesse o uso de armas químicas, caberia uma intervenção bélica para retirar Bashar al-Assad do poder. No entanto, novamente o acesso é negado e os países envolvidos não conseguiram provas suficientes que justificassem uma intervenção (Kimball & Davenport, 2021).

Por isso, fotógrafos como Hamza Al-Ajweh são peças fundamentais na prestação de contas e na apuração de possíveis crimes de guerra que muitos governos cometem contra o seu próprio povo para a manutenção de seu poder. Sem esses relatos e imagens ficaríamos reféns de discursos maquiados e tendenciosos que buscariam esconder a crueldade do campo de guerra, fazendo com que a violação dos direitos de cada pessoa e os crimes de guerra ficassem ocultos.

Considerações Finais

Nesta breve análise que busca fomentar o debate acerca das narrativas construídas através das fotos no campo de guerra, enxergamos através das lentes de Hamza Al-Ajweh a necessidade do questionamento e da (des)construção de estereótipos em torno da imagem. Além disso, apontamos que as leituras podem ser consideradas “polissêmicas”, no sentido utilizado na obra de Barthes (1982/1990), pois são capazes de gerar múltiplos significados no processo de visualização, revelando camadas de análise e interpretação. Neste sentido, há uma interação dinâmica entre o fotógrafo, o espectador e a imagem.

O contexto histórico-geográfico do confronto sírio não pode ser ignorado quando olhamos para as fotografias no campo de guerra. Na foto em questão, Hamza Al-Ajweh mostra um garoto no meio de destroços, apontando o sofrimento e uma possível solidão/abandono/errância, subentendendo que a criança (sobre)vive a guerra. No entanto, a data da fotografia (2018) e seu espaço geográfico (Ghouta — subúrbio de Damasco) trazem outra possível narrativa, pois em 2018 alguns meios de comunicação apontavam a vitória de Bashar al-Assad (Ozkizilcik, 2021) e o início das obras de reconstrução no país (Daher, 2019, p. 3). Ao contextualizar politicamente a imagem, a narrativa se transforma. A cena fria e dramática descrita anteriormente, quando colocada em contexto, retrata esperança de transformação, no entanto, o questionamento permanece, pois no contexto sírio, ambas as narrativas podem estar entrelaçadas.

Cabe aqui a utilização do conceito de “cidadania visual”, proposto por Azoulay (2012). Para a autora, a análise da cidadania visual requer que reconheçamos que as práticas de representação sobre direitos humanos, ação humanitária e desenvolvimento estão embutidas em histórias longas e complexas — de caridade, filantropia, colonialismo, império, missões civilizatórias, expansão capitalista, entre outros — que tendem a mascarar as conexões políticas, sociais e econômicas que ligam a própria história dos espectadores com os dramas de outro lugar. A formulação de Azoulay (2008) postula que a fotografia — como um conjunto de práticas sociais — constitui um “vínculo” ou conjunto de “relações políticas” entre todas as partes envolvidas em qualquer ato fotográfico: o fotografado, o fotógrafo e o espectador. A cidadania para Azoulay (2008) nunca é uma posse ou estatuto fixo, mas depende de um processo contínuo de reconhecimento entre os cidadãos e um poder governante. A pluralidade em jogo na cidadania, que garante a igualdade entre os cidadãos e restringe o poder governante, encontra paralelo em “fotografias que trazem vestígios de uma pluralidade de relações políticas que podem ser atualizadas pelo ato de assistir, transformar e divulgar o que é visto em reivindicações que demandam ação” (Azoulay, 2008, p. 25). O que a autora denomina de “contrato civil de fotografia” é, portanto, uma (re)conceituação da cidadania pelas lentes da fotografia e uma análise da fotografia pelo enquadramento da cidadania.

Para compreender este emaranhado de representações visuais como processos políticos, no entanto, apontamos para a necessidade não apenas de analisarmos o conteúdo discursivo dessas representações, mas também os próprios atos de visualização. Visibilidade e invisibilidade devem ser entendidas antes de tudo como modos políticos de existência, e a representação deve ser entendida também em termos visuais e políticos, lembrando sempre da relação entre visibilidade e poder. Compartilhamos da percepção de Köhn (2016) de que a existência de migrantes na esfera pública é constituída por uma dialética da in/visibilidade, do encobrimento e da exposição. A visibilidade proeminente que os migrantes recebem na mídia como estereótipos os torna efetivamente invisíveis como indivíduos.

Além disso, existe uma ligação perturbadora entre as representações da mídia e a política do estado de vigilância e controle de migrantes. Sua visualização é, portanto, potencialmente perigosa para muitos migrantes, pois entra em conflito com sua necessidade de permanecer invisíveis. (Köhn , 2016, p. 31)

No contexto de uma retórica desumanizante em torno da imigração e do crescente cansaço da compaixão, o sucesso das imagens em sua capacidade de estimular a empatia por meio da narração de histórias é inegável. Em vez de solidificar as fronteiras políticas divididas entre “nós” e “eles”, a fotografia aproxima os dois, atuando como um espelho para universalizar a experiência do migrante. O trabalho no campo de guerra, realizado por fotógrafos e ativistas, é fundamental para que os horrores sejam registrados e compartilhados ao redor do mundo, trazendo um senso de responsabilidade aos representantes dos países que estão fora do conflito e para as agências internacionais, assegurando a interrupção destes horrores — mesmo em situações completamente caóticas, como é possível observar em diversas cidades sírias. Sem esses relatos não seria possível lutar por proteção e segurança daqueles que vivem o horror da guerra, nem tampouco a criação de políticas públicas que resguardem as pessoas que migram de áreas de guerra.

Encerramos este artigo compartilhando da perspectiva de Grau e Hinterwaldner (2021), que oferecem a ideia contemporânea de uma perspectiva iconográfica que seja política, especialmente quando chama a atenção do leitor para o papel que a fotografia passa a desempenhar cada vez mais na atualidade a respeito das questões sociopolíticas de hoje, “como as mudanças climáticas, finanças, migração humana e sociedade de vigilância” (p. 10).

Agradecimentos

Esta pesquisa foi parcialmente financiada pelo Pipeq- PUC/São Paulo (projeto nº 18980).

Contribuições dos Autores

Suzana Ramos Coutinho realizou a conceituação e a metodologia do artigo proposto, desenvolvendo com mais afinco as partes relacionadas a migração e atuou de forma conjunta nas análises relacionadas a imagem. Foi responsável pela aquisição de financiamento junto a PUC e participou de todo o processo de redação (redação do rascunho original; revisão e edição). Jesner Esequiel dos Santos realizou a visualização do artigo proposto, desenvolvendo com mais afinco as partes relacionadas com a Primavera Árabe síria e atuou de forma conjunta nas análises relacionadas a imagem. Participou de todo o processo de redação (redação do rascunho original; revisão e edição).

Notas Biográficas

Suzana Ramos Coutinho é pós-doutora pela Universidade de Cambridge (2013) e doutora pela Universidade de Lancaster, Inglaterra (2009). Possui mestrado em antropologia social pela Universidade Federal de Santa Catarina (2004) e graduação em ciências sociais pela Universidade Federal de Santa Catarina (2000). É fotógrafa profissional pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial de São Paulo. É professora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciência da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie/São Paulo (Brasil) , atuando como docente no Programa de Pós-Graduação em Educação, Arte e História da Cultura (Centro de Educação, Filosofia e Teologia) da mesma universidade. Faz parte da equipe editorial da REVER: Revista de Estudos da Religião e é editora temática da Revista TRAMA, na seção de “História da Cultura”. É sócia-efetiva da Associação Brasileira de Antropologia, membro da International Society for the Sociology of Religion e membro da International Visual Sociology Association. É líder do grupo de pesquisa Centro de Estudos Interdisciplinares sobre Migração e Imagem.

ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5629-1914

Email: sucoutinho@gmail.com

Morada: Programa de Pós-Graduação em Educação, Arte e História da Cultura, Rua da Consolação, 930, prédio 25, térreo, Consolação, São Paulo, Brasil, CEP: 01302-907

Jesner Esequiel Santos é autor do livro O Caminho Religioso na Primavera Árabe Síria publicado pela BTbooks em 2015. É mestrando em educação, arte e história da cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, vinculado ao Centro de Educação, Filosofia e Teologia, São Paulo (Brasil). É membro do grupo de pesquisa do Centro de Estudos Interdisciplinares sobre Migração e Imagem (Universidade Presbiteriana Mackenzie). Possui bacharel em teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2015) e um segundo bacharel em teologia pelo Seminário Teológico Presbiteriano Reverendo José Manoel da Conceição (2020).

ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7705-657X

Email: jesner.eds@gmail.com

Morada: Programa de Pós-Graduação em Educação, Arte e História da Cultura, Rua da Consolação, 930, prédio 25, térreo, Consolação, São Paulo, Brasil, CEP: 01302-907

Notas

1. A Sharia é o sistema jurídico do Islã. É um conjunto de normas derivado de orientações do Corão, falas e condutas do profeta Maomé e jurisprudência das fatwas — pronunciamentos legais de estudiosos do Islã. Em uma tradução literal, Sharia significa "o caminho claro para a água". Veja mais em “Afeganistão: O Que É a Sharia, Lei Islâmica Que o Talebã Quer Aplicar no País?” (2021).

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Este trabalho encontra-se publicado com a Licença Internacional Creative Commons Atribuição 4.0.

Biografias Autor

Suzana Ramos Coutinho, Centro de Educação, Filosofia e Teologia, Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, Brasil/Centro de Humanidades, Faculdade de Ciências Sociais, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Brasil

Suzana Ramos Coutinho é pós-doutora pela Universidade de Cambridge (2013) e doutora pela Universidade de Lancaster, Inglaterra (2009). Possui mestrado em antropologia social pela Universidade Federal de Santa Catarina (2004) e graduação em ciências sociais pela Universidade Federal de Santa Catarina (2000). É fotógrafa profissional pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial de São Paulo. É professora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciência da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie/São Paulo (Brasil) , atuando como docente no Programa de Pós-Graduação em Educação, Arte e História da Cultura (Centro de Educação, Filosofia e Teologia) da mesma universidade. Faz parte da equipe editorial da REVER: Revista de Estudos da Religião e é editora temática da Revista TRAMA, na seção de “História da Cultura”. É sócia-efetiva da Associação Brasileira de Antropologia, membro da International Society for the Sociology of Religion e membro da International Visual Sociology Association. É líder do grupo de pesquisa Centro de Estudos Interdisciplinares sobre Migração e Imagem.

Jesner Esequiel Santos, Centro de Educação, Filosofia e Teologia, Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, Brasil

Jesner Esequiel Santos é autor do livro O Caminho Religioso na Primavera Árabe Síria publicado pela BTbooks em 2015. É mestrando em educação, arte e história da cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, vinculado ao Centro de Educação, Filosofia e Teologia, São Paulo (Brasil). É membro do grupo de pesquisa do Centro de Estudos Interdisciplinares sobre Migração e Imagem (Universidade Presbiteriana Mackenzie). Possui bacharel em teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2015) e um segundo bacharel em teologia pelo Seminário Teológico Presbiteriano Reverendo José Manoel da Conceição (2020).

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Publicado

2022-01-31

Como Citar

Coutinho, S. R., & Santos, J. E. (2022). Migração e Conflito Sírio: A Narrativa por Trás da Imagem. Vista, (9), e022002. https://doi.org/10.21814/vista.3650

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