O blackface em Portugal. Breve história do humor racista

Autores

  • Marcos Cardão Centro de Estudos Comparatistas (CEC), Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa, Portugal

DOI:

https://doi.org/10.21814/vista.3063

Palavras-chave:

Racismo, humor, colonialismo, pós-colonialismo, Portugal

Resumo

A sobrevalorização da capacidade transgressora do humor tende a colocá-lo fora da crítica, mesmo quando exercício humorístico gera estereótipos racistas. O sistema hierárquico e dis- criminatório das sociedades coloniais e a construção da especificidade identitária do negro foi sendo reforçada por formas racializadas de entretenimento, entre as quais, formas de humor que recorriam ao blackface. Conhecido pelo seu racismo primário, o subgénero blackface retratava a população negra como falha em inteligência, preguiçosa, supersticiosa. Embora seja um subgénero humorístico de origem norte-americana, a prática do blackface internacionalizou-se e chegou também a Portugal. Neste artigo, pretende-se o fazer uma breve história do humor racista em Portugal, começando por identificar os primeiros humoristas que recorreram ao blackface no contexto histórico do colonialismo português, sem deixar de referir exemplos recentes, que revelam como este subgénero humorístico, não só persiste, como porventura se intensificou e diversificou no contexto pós-colonial.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Referências

Araújo, M. & Maeso, S. (2016). Os contornos do eurocentrismo: raça, história e textos políticos. Coimbra: CES/Almedina.

Bean, A.; James H. & Brooks, M. (1996). Inside the minstrel mask: readings in nineteenth-century blackface minstrelsy. Hanover/ London: Wesleyan University Press.

Bergo, B. & Nicholls T. (2015). I don’t see color: personal and critical perspectives on white privilege. Pennsylvania: The Pennsylvania State University.

Bethencourt, F. (2015). Racismos. Das cruzadas ao século XX. Lisboa: Temas e Debates.

Bhabha, H. (2005). A questão Outra. Estereótipo, discriminação e o discurso do colonialismo. In M. R. Sanches (Org.) Deslocalizar a Europa: antropologia, arte, literatura e história na pós-colonialidade (pp. 143-166). Lisboa: Edições Cotovia.

Billig, M. (2005). Laughter and Ridicule. Towards a Social Critique of Humour. London/ Thousand Oaks/ New Delhi: Sage publications.

Brown, E. (2019, 27 de março). Mammy Jars Make a Mockery of Black People. Why Are They Still Collected? New Work Times. Consultado em: https://www.nytimes.com/2019/03/27/arts/mammy-jars-black-history-month.html?fbclid=IwAR10jHgs66acOzu3PP9q3pqBHFZIY_9zk6BkSHxp8hveSeTgwc y2Hd2z0XA

Cabecinhas, R. (2007). Preto e Branco: a naturalização da discriminação racial. Porto: Campo das Letras.

Cardão, M. (2014). Fado Tropical. O luso-tropicalismo na cultura de massas (1960- 1974). Lisboa. Edições Unipop.

Cardão, M. (2018). Foram oceanos de amor. Os Descobrimentos Portugueses na cultura pop dos anos 80. New Perspectives on Luso-Tropicalism. Portuguese Studies Review 26 (1), pp. 99-148.

Cardão, M. (2019). Dos fracos não reza a História. Os Heróis do Mar e a invenção do nacionalismo pop. Análise Social, 231, liv (2.o), pp. 256-283.

Castelo, C. (1999). O Modo Português de Estar no Mundo. O Lusotropicalismo e a Ideologia Colonial Portuguesa (1933-1961). Porto: Edições Afrontamento.

Cipriano, R. (2018, 14 de março). Ricardo Araújo Pereira e Mick Hume explicam: liberdade de expressão é o direito a ser ofendido. Consultado em: https://observador.pt/2018/03/14/o-que-e-a-liberdade-de-expressao-o-direito-a-ser- ofendido/

Cox, K. L. (2011). Dreaming of Dixie: how the South was created in American. North Carolina: The University of North Carolina Press.

Critchley, S. (2002). On Humour. London/ New York: Routledge.

Depois de Sabonete... O Parafuso (1961, 20 de dezembro) Plateia, pp. 30.

Desmas, M. (2019), Bruxelles: accusés de racisme, les “Noirauds” ne défileront plus avec le visage teint en noir. Consultado em: https://france3-regions.francetvinfo.fr/hauts- de-france/bruxelles-accuses-racisme-noirauds-ne-defileront-plus-visage-teint-noir- 1638002.html?fbclid=IwAR0kIhR7tiVwOgeRFusa5Yd66F8F0K- ofB5JKJj7uebWHQfmOtH-lRO80xU

Dias, N. (2019, fevereiro). O racismo politicamente correto: modos de usar, Le Monde Diplomatique, n.o 148. Consultado em: https://pt.mondediplo.com/spip.php?article1273.

Du Bois, W.E.B. (2007). The Souls of Black Folk. New York: Oxford University Press Estatuto do indigenato. Consultado em:

https://www.fd.unl.pt/Anexos/Investigacao/7523.pdf

Fanon, F. (1975). Pele Negra Máscaras Negra. Porto: Paisagem.

Freyre, G. (1961). O Luso e o Trópico: Sugestões em Torno dos Métodos Portugueses de Integração de Povos Autóctones e de Culturas Diferentes da Europeia num Complexo Novo de Civilização: o Luso-Tropical. Lisboa: Comissão Executiva das Comemorações do V Centenário da Morte do Infante D. Henrique.

Gates, R. J. (2007). Double negative: the black image and popular culture. Durham/ Lonond: Duke university Press.

Gato Fedorento (2007). Fitness Fascista. Consultado em: https://www.youtube.com/watch?v=dh6ipiAFKjQ

Gato Fedorento (2006). Ta Male! Consultado em: https://www.youtube.com/watch?v=S7698Vvszpw

Gato Fedorento (2010). Obama Português. Consultado em: https://www.youtube.com/watch?v=f7BgL6Jp9AY

Gato Fedorento (2007). Dr. House. Consultado em: https://www.youtube.com/watch?v=Fpv9XZuIYRs

Hall, S. (2003). Representation: Cultural Representations and Signifying Practices. London/ Thousand Oaks/ New Delhi: Sage.

Harper, G. (2002). Comedy Fantasy and Colonialism. London/ New york: Continuum.

Henriques, J. G. (2018). Racismo no país dos brancos costumes. Lisboa: Tinta da China.

Hobsbawm, E & Ranger T. (2012). The Invention of Tradition. Cambridge/ New York: Cambridge University Press.

Hornback, R. (2010). Racism and Early Blackface Comic Traditions. New York/ London: Palgrave Macmillan.

Johnson, S. (2012). Burnt Cork: Traditions and Legacies of Blackface Minstrelsy. Amherst/ Boston: University of Massachusetts Press.

Kersey, P. (2011). Hollywood in Blackface: Black Images in Film from Night of the Living Dead to Thor. CreateSpace Independent Publishing Platform.

López, A. J. (2005). Postcolonial whiteness: a critical reader on race and empire. New York: State University of New York Press.

Manso, N. V. (2014, 19 de dezembro). Blackface: dreaming of a white christmas? Público. Consultado em: https://www.publico.pt/2014/12/19/p3/cronica/blackface- dreaming-of-a-white-christmas-1822250

Mello, F. R. (1969). Antologia do humor Português. Lisboa: Afrodite.

Mezzadra, S. (2018). Modos de Ver: Du Bois e Fanon. In M. R. Sanches (org.) Descolonizações: reler Amílcar Cabral, Césaire e Du Bois no séc. XXI (pp. 109-126). Lisboa: Edições 70.

Moore, S. (2016, 21 de setembro) The ‘right’ to sell golliwogs is not something we should be fighting for in 2016, The Guardian. Consultado em: https://www.theguardian.com/commentisfree/2016/sep/21/right-to-sell-golliwogs-not- something-should-be-fighting-for-in-2016-suzanne-moore?CMP=fb_gu

Moreira, A. (2018). O que é o racismo recreativo. Belo Horizonte: Grupo Editorial Letramento.

Nogueira, R. (2014, 19 de dezembro). Comédia a preto e branco. Público. Consultado em: https://www.publico.pt/2014/12/19/p3/cronica/comedia-a-preto-e-branco-182224

Nowatzki, R. (2010). Representing African Americans in Transatlantic Abolitionism and Blackface Minstrelsy. Baton Rouge: Louisiana State University Press.

Nyaunga, J. J. (1972, 18 de setembro). Até quando o sr. Parafuso no Rádio Clube? Voz Africana, pp. 8.

Oliveira, D. (Produtor) (2018, 17 de maio) Perguntar Não Ofende. Ricardo Araújo Pereira: o politicamente correto é uma forma de censura? [Podcast áudio]. Consultado em: https://www.perguntarnaoofende.pt/pno/ricardo-araujo-pereira

Pereira, R. A. (2017). Reaccionário com Dois Cês. Lisboa: Tinta-da-China.

Pereira, R. A. (2016, 21 de dezembro). Mariquice linguística. Visão. Consultado em: http://visao.sapo.pt/opiniao/ricardo-araujo-pereira/2016-12-21-Mariquice-linguistica

Reichl, S. & Stein M. (2005). Cheeky Fictions. Laughter and the Postcolonial. Amsterdam/ New York: Rodopi.

Robinson, C. J. (2007). Forgeries of memory and meaning: Blacks and the regimes of race in American theater and film before World War II. Chapel Hill: University of North Carolina Press.

Said, E. W. (2003). Culture and Imperialism. Londres: Vintage.

Sammond, N. (2015). Birth of an industry: blackface minstrelsy and the rise of American animation. Durham/ London: Duke University Press Books.

Seth, S. (2018). Pós-colonialismo e a história do nacionalismo anticolonial. Práticas da História, Journal on Theory, Historiography and Uses of the Past 7, 45-75.

Schor, P. & Martina, E. (2016). White Order: Racialization of Public Space in the Netherlands. Dedalus—Revista Portuguesa De Literatura Comparada, 19, 161–188.

Silva, N. A. & Santos, I. F. (2008). Antologia do humor português mas só o que saiu em livro e mesmo assim há uns que, se calhar, não deviam aqui estar e outros que não estão e deviam estar. é como em tudo: 1969/2009 mais ou menos enfim, 18 de Abril de 2008, até à hora do almoço, o mais tardar. Alfragide: Texto Editora.

Solomon, J. & Bulmer, M. (ed.) (1999). Racism. Oxford/New York: Oxford University Press.

Sotiropoulos, K. (2006). Staging Race Black Performers in Turn of the Century America. Cambridge/ Massachusetts/ London/ England: Harvard University Press.

Stoler, A. L. (2016). Duress. Imperial durabilities in our times. Durham/ London: Duke University Press.

Taguieff, P-A. (2001). The force of prejudice: on racism and its doubles. Minneapolis/ London: University of Minnesota Press.

Tazzioli, M., Fuggle, S. & Lanci ,Y. (2015). Foucault and the history of our present, New York/ London: Palgrave Macmillan.

Tucker, L. G. (2007). Lockstep and dance: images of black men in popular culture. Jackson: University Press of Mississippi.

Vala, J., et al. ([1999] 2015). Expressões dos Racismos em Portugal. Lisboa: ICS.

Weaver, S. (2011). The rhetoric of racist humour: US, UK and global race joking. London/ New York: Routledge.

Downloads

Publicado

2020-06-30

Como Citar

Cardão, M. (2020). O blackface em Portugal. Breve história do humor racista. Vista, (6), 121-142. https://doi.org/10.21814/vista.3063